Nas entrelinhas da história
Durante o tempo que estive na Holanda, e durante as postagens, ficou nas entrelinhas uma história, um romance. Mas essa é uma história que sempre quis contar, deixar bem aberta. Porque felicidade é feita pra ser vivida intensamente e compartilhada!
A história começa a exato um ano, numa das inúmeras noites chuvosas de Amsterdã. Um grupo de brasileiros se reúne para comemorar o aniversario de um amigo em comum, e quando se mora fora dessa forma, todos compatriotas são amigos. Conheci várias pessoas esse dia, inclusive uma pessoa que achei que fosse um dos estrangeiros infiltrados no nosso grupo de estrangeiros.
Como toda reunião de muita gente com idéias diferentes, o grupo que se reuniu em Amsterdã naquela noite se dividiu em interesses. Uma parte pruma boate e a outra parte para uma “peregrinação” de pubs. Estavam nesse grupo dois estrangeiros, três brasileiros e eu. Não me dei bem em entrosar com os estrangeiros que bebiam demais, um dos brasileiros sumiu no meio da festa e eu dancei muito com esse brasileiro de olhos azuis.
A noite acabou, e o contato posterior foi em meio virtual, apesar de ele nem lembrar como meu telefone foi parar no celular dele. Mas a conversa rolava solta, natural. E assim fomos nos conhecendo, interesses em comum, e o fatal: começamos a planejar viagens juntos. Claro, que com mais pessoas, porque, de fato, nem ele nem eu queríamos nos envolver, por motivos diferentes, mas não estava nos nossos planos viver um romance com quem quer que fosse.
Passamos bastante tempo sem se encontrar de fato, mudei de casa, trabalho, ele também, mas por motivos diferentes, pra sorte dele. Nosso encontro se deu, de novo, em uma festa de amigos, dessa vez pra despedir. E que festa! Aliás, nem sei, já que não lembro de muita coisa. Foi no começo de dezembro. E na verdade nos encontramos mais para comprar as passagens de trem para Paris, em janeiro, e aproveitar a promoção!
Ainda nos vimos de novo em dezembro, quando ele foi passar um fim de semana na casa em que eu morava junto com outros dois brasileiros. E foi bem divertido! Passamos o sábado tranqüilo e no domingo fomos para Amsterdã debaixo de neve junto com outro brasileiro que tinha se mudado para a mesma cidade que eu, grande amigo. E nesse dia ele nem conseguiu voltar pra casa por causa da neve e dos trens, voltou pra nossa casa.
Depois disso, o ano novo…
Esse eu nunca vou esquecer. Pode-se dizer que foi aí que as coisas ficaram mais claras. Tínhamos combinado de passar em Amsterdã. Mas uma virose brava me deixou de cama nesses dias, e eu não poderia ir pra festa lá. Esse rapaz então veio passar a virada comigo e o brasileiro que ainda estava na casa. Apesar de eu estar passando bem mal, foram dias bem felizes. Nos aproximamos. Conversávamos, assistíamos filme. Café da manhã de bolacha com geléia e chá… carinhos e cafunés… e sonhos sonhados juntos!
Quando estamos na Europa o que mais queremos é viajar. Conhecer tudo que temos pra ver. E sempre quis conhecer a Grécia, país que me fascina pela sua história e filosofia desde pequena. E, como ele dizia, seria um sonho pra ele. Nesse ano novo, olhando destinos de bobeira na internet, vi que não seria tão inviável realizar esse sonho em comum. Difícil seria alguma outra pessoa topar passar uma semana por lá!
A despedida desse feriado é coisa que não esquecerei… além de ele ter ficado uma hora a mais, só para ficar abraçado comigo, na porta nos demos um abraço, mas foi um abraço tão intenso, que foi muito mais que um abraço.
E esse abraço ficou na minha cabeça nas semanas seguintes. O que eu faria? Eu queria? Queria. Mas devia? Nunca vou saber se não. O fato é que no dia 20 de janeiro viajaríamos para Paris. E Paris não é qualquer cidade. Só a idéia de ir pra lá já me deixava mais romântica, carente. Pensando que estar na cidade luz com alguém especial seria… especial!
Eu não queria mais evitar, sabia o que queria, mas não tomaria atitude. No fim das contas era coisa que tinha que partir dos dois.
Essa mágica de Paris nos envolveu. Nos envolvemos de fato. O abraço se fez em beijos, sorrisos, paixão. Foi coisa maravilhosa! Estar com uma pessoa, num beijo, que fez o fato de estarmos em cima da Torre Eiffel parecer… nada. Voltar a ser criança na Disney, brincando de esconder nas cavernas, sentindo adrenalina de várias formas… Com direito a andar alegres pelas ruas de Paris depois de tomar algum vinho francês. Jantar à beira do sena, em grande estilo. E agora lembrando disso tudo, parece ao mesmo tempo que foi um tempo enorme, e tão curto. Mágico.
Voltamos, cada um pra sua cidade, mas com uma felicidade deliciosa, que eu me lembro bem, durou dias! Durou até nosso encontro seguinte, no carnaval. Fomos para a casa de um amigo comemorar com feiojada, neve, caipirinha e outros etílicos, e outros brasileiros! Pessoas que não vou esquecer tão cedo.
Foram muitos encontros depois. Íamos nos descobrindo, conhecendo aos poucos, e mais e mais. Ele ia para minha casa nos finais de semana. Onde fomos na boate teenager e dançamos lambada do jeito verdadeiro para os holandeses verem. Ficávamos de namorinho o fim de semana inteiro até a hora de ele voltar pra casa. Aproveitamos bem esses dias, já que estava frio e ele não tinha que trabalhar tanto quanto foi depois. Nos envolvendo intensamente, como tudo que acontece quando se mora fora. Fomos amigos, amantes, parceiros!
Nesse meio tempo o nosso sonho em comum foi tomando forma… as passagens de avião e de barco foram compradas. Os hotéis reservados. E a Grécia tinha tomado forma para nós.
Na páscoa partimos pro segundo melhor lugar que se pode ir nessa data, depois da Suíça, a Bélgica. Juntamente com o brasileiro que morava na mesma cidade que eu. E que viagem! Três cidade em três dias! Mas valeu muito a pena. Com direito a muita cerveja diferente e karaokê. E a música dedicada a mim, “All my loving”. Hum, tem isso também! Esqueci de contar.
Nos falamos quase todos as noite durante meses pelo telefone ou skype. E numa dessas noites ele dedicou pra mim uma música dos Beatles, outra paixão em comum, “Something”. Me fez chorar esse dia. A letra dessa música, segundo ele, trazia muito da forma como ele me via.
Voltando da Bélgica, eu passando por mais problemas na empresa e com o programa, e ele sempre lá pra me ouvir. E a viagem pra Grécia se aproximando. Os nossos finais de semana juntos cada vez mais raros com o aumento do trabalho dele. Mas nosso contato continuava, sempre.
Os ânimos se exaltaram quando os aeroportos da Europa foram fechados por causa do vulcão. E ainda quando a crise na Grécia deu origem a uma paralisação bem no dia que iríamos chegar lá. Mas nada disso nos impediu de viver oito dias de sonho!
Depois de se apaixonar em Paris, tivemos praticamente uma lua de mel na Grécia! Em praias paradisíacas. A água tão azul que fazia os olhos dele ficarem sem cor quando estávamos por perto. Comidas maravilhosas, cheiros… tudo isso acentuado por um sentimento de cumplicidade e companheirismo que eu não imaginava nunca encontrar em alguém, muito menos que eu tivesse que atravessar o oceano pra conhecer. Sabe o que é estar na frente de uma pessoa, olhando dentro de seus olhos, e ver como se tivessem passado 30 anos vividos intensamente juntos? Eu sei. E esse momento está gravado em minha memória como uma quase verdade, dessas que só podem ser ditas no silêncio de olhares…
E como todo sonho uma hora acaba, voltamos pra nossa realidade na Holanda. A partir daí começaram os preparativos para a volta. E eu achando que teria que voltar naquele mês de junho ainda, por não agüentar, pelos problemas na empresa. Mas consegui ficar.
No entanto o fim estava próximo, tanto pra ele quanto pra mim, ou pra nós. Ele ainda foi alguma vez pra minha casa, passeamos no sul da Holanda, onde ele trabalhou primeiro. O sentimento de ter que encarar outra realidade foi tomando conta da gente. As incertezas da volta. Junto com as certezas. Essa bagagem acumulada durante seis maravilhosos meses.
Acompanhei ele até o ônibus que o levaria para o aeroporto, na volta dele pra casa. Não me sentia mal, pois ouvi de sua boca que ele queria tentar continuar quando voltássemos para o Brasil.
E logo eu estaria em casa também…